Por Jefferson Fonseca · Melhor Homem · Atualizado em setembro de 2026
Resposta rápida: Os melhores filmes de faroeste se dividem em três eras. Clássico: Rastros de Ódio (1956), Matar ou Morrer (1952), Onde Começa o Inferno (1959), Os Brutos Também Amam (1953), O Homem que Matou o Facínora (1962). Spaghetti: Três Homens em Conflito (1966), Era Uma Vez no Oeste (1968), Por um Punhado de Dólares (1964), Django (1966). Moderno: Os Imperdoáveis (1992), Onde os Fracos Não Têm Vez (2007), O Assassinato de Jesse James pelo Covarde Robert Ford (2007), Bravura Indômita (2010), Django Livre (2012) e Meu Ódio Será Sua Herança (1969), que fica entre as eras.
Ordem para quem nunca viu: comece por Três Homens em Conflito (o mais divertido), depois Os Imperdoáveis (o mais maduro), depois Rastros de Ódio (o clássico que explica os outros dois). O resto vem sozinho.
Faroeste é o gênero que os pais assistiam e que muito homem de 30 anos nunca deu chance — porque a memória é de filme lento, preto e branco, mocinho de chapéu branco e índio caindo do cavalo. Isso existe, e envelheceu mal. Mas o faroeste também é o gênero de alguns dos melhores filmes já feitos sobre violência, honra, vingança e o fim de um mundo, e ele se reinventou três vezes: no clássico de Hollywood, no spaghetti italiano que virou tudo de cabeça para baixo, e no faroeste moderno que fala do mesmo assunto com a moral do século 21. Este guia tem os quinze filmes de faroeste que valem de verdade, separados por era, com a ordem certa para ver, o que cada um mudou no gênero, os que ficaram de fora e por quê, e o contra honesto sobre o que o faroeste clássico faz com índio, mulher e história. Revi todos nos últimos dois anos, e dois deles subiram da lista de “curiosidade” para a de “obra-prima”.
A era clássica: Ford, Hawks e o mito do Oeste
Rastros de Ódio (The Searchers, 1956, John Ford). John Wayne no papel mais complexo da carreira: um veterano racista que passa anos procurando a sobrinha sequestrada por comanches — e o filme deixa claro que ele é tão perigoso quanto o que persegue. A cena final da porta é a mais citada da história do cinema americano. É o faroeste que Scorsese, Spielberg e Lucas copiaram, e o único da era clássica que é obrigatório sem ressalva.
Matar ou Morrer (High Noon, 1952, Fred Zinnemann). Um xerife (Gary Cooper) espera o trem do meio-dia com o bandido, e a cidade inteira o abandona. Em tempo real, 85 minutos, preto e branco. É sobre o macarthismo, sobre coragem sem plateia, e sobre o que os “cidadãos de bem” fazem quando chega a hora. John Wayne odiou o filme; é o melhor elogio.
Onde Começa o Inferno (Rio Bravo, 1959, Howard Hawks). A resposta de Wayne e Hawks ao High Noon: o xerife que não pede ajuda e conta com um bêbado, um velho e um garoto. Mais leve, mais divertido, com Dean Martin cantando. É o faroeste de “ficar com os amigos”, e o que Tarantino cita como filme perfeito.
Os Brutos Também Amam (Shane, 1953, George Stevens). O pistoleiro misterioso que ajuda a família de colonos e vai embora. O molde de todo “herói que não pode ficar” — de Yojimbo a Logan. Um pouco sentimental para hoje, e ainda assim funciona.
O Homem que Matou o Facínora (1962, John Ford). Wayne e James Stewart, e a frase “quando a lenda vira fato, publique a lenda”. É o faroeste sobre o próprio faroeste: como a violência fundou a lei e como a história foi reescrita depois. O filme mais inteligente da era clássica.
O spaghetti: Leone destrói o mito e faz outro
Nos anos 60, italianos filmando na Espanha com orçamento curto reinventaram o gênero: sem mocinho, todo mundo sujo, closes extremos, música de Ennio Morricone e silêncio de dois minutos antes do tiro.
Por um Punhado de Dólares (1964, Sergio Leone). Refilmagem não autorizada de Yojimbo, de Kurosawa, com Clint Eastwood de poncho e cigarro. Nasce o “homem sem nome”, nasce o spaghetti, nasce a carreira de Eastwood. Cru e ainda um pouco tosco; veja pela história.
Três Homens em Conflito (O Bom, o Mau e o Feio, 1966, Leone). O faroeste mais divertido já feito e um dos melhores filmes de qualquer gênero. Três canalhas atrás de ouro durante a Guerra Civil, três horas que passam voando, o duelo final no cemitério com a música que todo mundo sabe assobiar. Se for ver um faroeste só, é este.
Era Uma Vez no Oeste (1968, Leone). O oposto: lento, operístico, sobre o fim do Oeste com a chegada da ferrovia. Henry Fonda como vilão (a maior surpresa de elenco do gênero), Charles Bronson com a gaita, a abertura de dez minutos de silêncio na estação. Exige paciência e recompensa com a obra-prima de Leone.
Django (1966, Sergio Corbucci). Franco Nero arrastando um caixão pela lama, metralhadora, orelha cortada. Mais violento, mais barato e mais estranho que Leone. Gerou trinta “sequências” não oficiais e o filme de Tarantino, 46 anos depois.
Menção: O Grande Silêncio (1968, Corbucci), o faroeste na neve com o final mais niilista do gênero. Para quem já viu os outros.
O moderno: Eastwood fecha a conta, os Coen e Tarantino reabrem
Meu Ódio Será Sua Herança (The Wild Bunch, 1969, Sam Peckinpah). A ponte entre as eras: bandidos velhos demais para o mundo novo, violência em câmera lenta que chocou em 1969 e ainda impressiona, e o tiroteio final que nenhum filme de ação superou. É o faroeste que enterrou o clássico.
Os Imperdoáveis (1992, Clint Eastwood). O ex-pistoleiro que jura ter mudado e volta para um último serviço. Eastwood dirigindo o próprio mito para desmontá-lo: matar não é bonito, não é rápido, não é justo. Gene Hackman como o xerife, Morgan Freeman, o Oscar de melhor filme. O faroeste mais maduro já feito e o segundo a ver depois de Leone.
O Assassinato de Jesse James pelo Covarde Robert Ford (2007, Andrew Dominik). Brad Pitt como o bandido paranoico e Casey Affleck como o fã que vira assassino. Lento, lindo (fotografia de Roger Deakins), sobre fama e obsessão. Passou despercebido no cinema e virou culto. É o faroeste para quem gosta de cinema mais que de tiro.
Onde os Fracos Não Têm Vez (2007, irmãos Coen). Faroeste de 1980 com caminhonete e escopeta com silenciador: Javier Bardem como o matador com a moeda, Tommy Lee Jones como o xerife que não entende mais o mundo. É um faroeste sobre o fim do faroeste. Oscar de melhor filme.
Bravura Indômita (True Grit, 2010, Coen). Refilmagem que supera o original de 1969: a menina de 14 anos contratando um marshal bêbado (Jeff Bridges) para vingar o pai. Diálogo preciso, humor seco, final melancólico. O faroeste clássico refeito por quem entende dele.
Django Livre (2012, Tarantino). O spaghetti reencontra a escravidão americana: Jamie Foxx, Christoph Waltz, DiCaprio como o fazendeiro monstruoso. Violento, longo, engraçado e sério ao mesmo tempo. Tarantino fez Os Oito Odiados depois — mais filme de câmara que faroeste, e pior.
Em que ordem ver — e o que cada era ensina
| # | Filme | Era | Por que aqui |
|---|---|---|---|
| 1 | Três Homens em Conflito | Spaghetti | O mais divertido; vence qualquer preconceito com o gênero |
| 2 | Os Imperdoáveis | Moderno | O mais maduro; mostra o que o gênero virou |
| 3 | Rastros de Ódio | Clássico | O original que os dois anteriores estão respondendo |
| 4 | Bravura Indômita (2010) | Moderno | Clássico refeito, fácil de gostar |
| 5 | Matar ou Morrer | Clássico | Curto, tenso, preto e branco que não pesa |
| 6 | Meu Ódio Será Sua Herança | Ponte | A virada da violência |
| 7 | Era Uma Vez no Oeste | Spaghetti | Só depois de aprender a gostar do ritmo de Leone |
| 8 | Onde os Fracos Não Têm Vez | Moderno | O faroeste que não parece faroeste |
| 9 | Django Livre | Moderno | Spaghetti com a moral de hoje |
| 10 | Onde Começa o Inferno | Clássico | O faroeste de ficar com os amigos |
| 11 | O Homem que Matou o Facínora | Clássico | O faroeste sobre o mito |
| 12 | O Assassinato de Jesse James… | Moderno | Para quem já está dentro |
| 13 | Por um Punhado de Dólares | Spaghetti | Pela história |
| 14 | Django (1966) | Spaghetti | O lado sujo |
| 15 | Os Brutos Também Amam | Clássico | O molde do herói que vai embora |
O que cada era ensina: o clássico é sobre fundar uma ordem (a lei chegando, a violência necessária, o mito); o spaghetti é sobre não existir ordem (todo mundo é canalha, só o dinheiro é real); o moderno é sobre o custo da violência (quem mata não volta igual). Ver na ordem da tabela é ver a conversa entre as três.
Os que ficaram de fora — e o faroeste brasileiro
Dança com Lobos (1990). Bonito, longo, Oscar de melhor filme — e o “branco que salva os índios” envelheceu mal. Vale como espetáculo; não como faroeste essencial.
Butch Cassidy (1969). Ótima dupla (Newman e Redford), mais comédia romântica de bandidos que faroeste. Vale ver; não entra nos quinze.
Tombstone (1993) e Wyatt Earp (1994). Val Kilmer como Doc Holliday é o motivo de ver Tombstone. O resto é filme de ação de época.
O Tesouro de Sierra Madre (1948). Obra-prima, Bogart, mas é filme de garimpo no México, não faroeste. Veja de qualquer jeito.
Deadwood, Yellowstone, Godless. Séries. Deadwood é melhor que metade desta lista, e está em séries para maratonar.
O Cangaceiro (1953) e o faroeste brasileiro. O cangaço é o nosso Oeste: sertão, bandido com código, violência e mito. O Cangaceiro (Lima Barreto, prêmio em Cannes) é o original; Deus e o Diabo na Terra do Sol (Glauber Rocha, 1964) é o spaghetti antes do spaghetti — e O Auto da Compadecida, sem ser faroeste, tem mais Oeste do que parece. Para quem quer o gênero com sotaque, comece por Glauber.
Envelheceram mal: quase todo faroeste dos anos 30 e 40 com índio como “selvagem” sem rosto; os de John Wayne fora dos de Ford e Hawks; e os spaghettis de segunda linha, que eram feitos às dúzias e mostram.
O contra honesto: o que o faroeste esconde
O faroeste clássico é o mito fundador dos Estados Unidos, e mito fundador mente por definição. Os “índios” da era clássica são obstáculo sem rosto; a expansão para o Oeste aparece como aventura, não como o que foi para quem já vivia lá; a mulher é a professora ou a prostituta; e o negro simplesmente não existe até os anos 60. Rastros de Ódio é grande justamente porque encara o racismo do protagonista — e é a exceção. Ver faroeste clássico com esse olhar não estraga o filme; explica por que Leone, Peckinpah, Eastwood e Tarantino sentiram necessidade de destruí-lo e refazê-lo.
Outro contra: ritmo. O faroeste é lento por natureza — o gênero é feito de gente cavalgando por paisagem e de silêncio antes do tiro. Quem chega de série moderna vai achar que “não acontece nada” nos primeiros vinte minutos de Era Uma Vez no Oeste. Acontece; é que acontece devagar. Comece por Três Homens em Conflito, que tem ritmo, e vá desacelerando.
E o último: o faroeste é um gênero de homens sobre homens, e por décadas foi usado como manual de masculinidade — o homem calado, sozinho, que resolve tudo com violência e vai embora. É bonito no cinema e péssimo como modelo de vida; Os Imperdoáveis existe para dizer exatamente isso. Assista aos quinze como cinema, não como catecismo. Se a lógica de honra, código e violência atrai, os filmes de máfia tratam do mesmo assunto em cidade — e os podcasts de história contam como o Oeste e o cangaço foram de verdade, sem trilha de Morricone.
Perguntas frequentes
Qual o melhor filme de faroeste de todos os tempos?
Três Homens em Conflito (1966), de Sergio Leone, é o mais divertido e o mais amado; Os Imperdoáveis (1992), de Clint Eastwood, é o mais maduro; Rastros de Ódio (1956), de John Ford, é o clássico que os outros dois respondem. Os três disputam o posto, cada um por uma era.
Por onde começar a ver faroeste?
Por Três Homens em Conflito, que tem ritmo, humor e a música que todo mundo conhece — vence o preconceito com o gênero. Depois Os Imperdoáveis e Bravura Indômita (2010). Só então os clássicos em preto e branco, começando por Matar ou Morrer, que é curto e tenso.
O que é faroeste spaghetti?
Os faroestes italianos dos anos 60, filmados na Espanha com orçamento curto, que reinventaram o gênero: sem mocinho, todo mundo sujo, closes extremos, silêncio antes do tiro e música de Ennio Morricone. Sergio Leone (Por um Punhado de Dólares, Três Homens em Conflito, Era Uma Vez no Oeste) é o nome central.
Existe faroeste brasileiro?
O cangaço é o Oeste brasileiro: O Cangaceiro (1953, premiado em Cannes) é o original, e Deus e o Diabo na Terra do Sol (1964), de Glauber Rocha, é o spaghetti antes do spaghetti — sertão, bandido com código, violência e mito. Comece por Glauber.
Faroeste clássico envelheceu mal?
Em parte. A representação de índios, mulheres e negros na era clássica é datada, e muitos filmes dos anos 30 e 40 não sobrevivem. Os de Ford e Hawks aguentam pelo cinema — Rastros de Ódio encara o racismo do protagonista. O spaghetti e o moderno existem justamente para refazer o que o clássico escondia.
Do sertão a Chicago
Os filmes de máfia, as séries para maratonar e os podcasts que contam o Oeste real.
Sobre o autor
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Criador do Melhor Homem. Escrevo sobre estilo, empreendedorismo e cultura.
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